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maschamba



Quinta-feira, 24.02.11

Confrontos geracionais, dominós, pensamentos avulsos e um post cínico e confessional

Aqui há bastos anos, em amena cavaqueira com um militar de um país em guerra e depois de uma entrevista sincera e cândida sobre guerra, armas e desarmamento, olha-me ele nos olhos e diz-me: Sabe doutora, grande parte dos nossos problemas foram criados por vocês.O “vocês” neste caso era eu como representante da putativa comunidade internacional de auxílio ao desenvolvimento. Como assim? pergunto eu ainda que bem ciente dos males das “boas intenções” e das hipocrisias das políticas internacionais.Sabe, continua ele em ar meditativo, vêm vocês para aqui com as vossas Unicefes e as vossas vacinas, baixam-nos a mortalidade infantil, acodem-nos nas calamidades naturais, financiam-nos escolas básicas e iludem os nossos jovens com o futuro melhor que a educação lhes vai dar. Mas depois, não nos ajudam mais. Aos 14, 15 anos eles saem da escola e já não querem trabalhar com os pais, não querem trabalhar a terra; querem um emprego, com gabinete e secretária e nós não temos estrutura para os absorver. Dantes tínhamos as nossas calamidades que nos regulavam a população, vocês agora dão vida a todos e depois largam-nos nas nossas mãos. Temos jovens e jovens e jovens, mal preparados e poucos homens para trabalhar, para pagar impostos, para contribuir para o Estado. Vocês passam o problema para nós e depois ainda se queixam que nós isto e nós aquilo.Consigo parar a tempo o insulto perante o cinismo e hesito – digo, não digo, digo, não digo. Lanço rapidamente um pensamento ao básico das conversas difíceis (conversa do “eu”; positivo, negativo, negativo, positivo) e digo: Senhor General, vai-me desculpar a franqueza, mas concordo em parte consigo e noutras discordo absolutamente. Discordo absolutamente quando se queixa das vacinas e das calamidades porque EU acho humanamente insustentável que se deixem morrer pessoas, ou ficarem marcadas para a vida, devido a doenças preveníveis ou tratáveis, ou porque não usamos os meios que temos para as salvar. Depois, porque (despersonaliza, penso eu, despersonaliza) foram os últimos trinta anos de guerra que mataram a geração que devia agora estar a produzir e a pagar impostos, foi a guerra que destruiu sistematicamente toda e qualquer estrutura que vos pudesse ajudar a construir um país próspero e finalmente porque o Estado tem outras fontes de rendimento muito superiores aos impostos que possam vir a cobrar. Tendo dito isto, simpatizo com os problemas que enfrentam com a comunidade internacional, mas ela é o que é e embora não seja fácil gerir os seus variados interesses, exigências e caprichos, EU acredito na vossa capacidade para o conseguirem fazer.Olhou para mim fixamente, desviou os olhos, rodou a cadeira para o lado, contraiu os maxilares, (pensei estou feita!), suspirou, rodou a cadeira de frente para mim, olhou-me novamente, (pensei outra vez estou feita!, tento lembrar-me se alguém saberia onde eu estava) e diz-me: Bem que me tinham avisado! Bem que me disseram que a doutora nos dizia coisas que mais ninguém tinha coragem para nos dizer assim cara a cara. Diga-me, não tem medo?Eu? Medo? Eu que estava petrificada, o que de certa forma deu jeito, convenhamos, pois mantive-me direita e impávida na cadeira onde me encontrava. (Fase dois da conversa difícil: "eu" e personaliza).Senhor General, EU penso que sem medo não há coragem. O Senhor General combateu uma guerra, penso que certamente terá também tido medo nalgumas ocasiões. Mas continuou porque acreditou. As minhas armas são a franqueza e as palavras, porque eu acredito que a vida das pessoas pode melhorar e aqui quem a pode melhorar são os senhores. E digo o que digo porque sou vossa amiga e os amigos também servem para nos dizer o que nos custa ouvir. EU só posso falar; são os senhores quem pode agir.Levantou-se, aproximou-se de mim. Eu, ainda petrificada, encolhi-me interiormente mas mantive a (com)postura, pôs-me uma mão no ombro, estendeu-me a outra e disse-me: tem todo o meu respeito. Tem carta branca para ir onde quiser e qualquer problema que tenha enquanto por aqui andar ligue-me. Está sob a minha protecção.Apertámos a mão, saí do gabinete. Fui direita à casa de banho e bolsei-me toda, coberta em suores. Livrei-me da bílis da minha cobardia e dos insultos calados. Demorei alguns segundos até me recompor nas pernas e saí do ministério de cabeça caída e coração apertado. Vendi-me?, perguntava-me.Esta conversa não me tem saído da cabeça nos últimos dias por uma estranha associação com as revoltas a que temos assistido e com as deolindas locais. Remetem-me para as pirâmides demográficas. Onde todos parecem ver motivos políticos e religiosos, eu não consigo deixar de ver também um conflito geracional. A pirâmide demográfica do país do meu General é quase igual à do Egipto, do Bahrain e da Líbia (para só nomear estes três países), que apresentam aquilo a que os ingleses chamam um pronunciado “youth bulge”. Tal como nestes três países, também o regime do país do meu General tem sobrevivido devido à complacência internacional em aceitar o inaceitável sob a capa dos recursos ou das seguranças estratégicas. Tal como nestes três países também os jovens do país do meu General começam a dar um ar da sua graça. Discretamente ainda – um incêndio aqui, uns graffitis ali, um ligeiro aumento de decibéis na voz do descontentamento. Algo me diz que  também o país do meu General é uma das peças na fila de dominós que em cadeia se derrubam.O meu discurso foi bonito, a promessa do General cumpriu-se e nunca tive problemas nesse país. Perante os ditadores hoje caídos vemos agora criticamente espalhados por todo o lado os apertos de mão, os banquetes, as palmadinhas nas costas que os representantes das nossas democracias não se coibiram de distribuir. Recuperam-se discursos e negociatas. E eu continuo a interrogar-me. Vendi-me?, pergunto-me eu ainda hoje. Infelizmente, acho que sim. Sob a capa do meu medo, da minha arrogância em querer motivar acção e das minhas (boas) intenções também eu me vendi. Sou tão cúmplice como os outros; também eu, por inércia, por medo ou por tacitez, contribuí para que se aceitasse o inaceitável e aqui confesso que também eu apertei a mão ao diabo.AL

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por AL às 18:56


10 comentários

De catarina campos a 24.02.2011 às 19:55

Mas salvaste vidas, não foi? Não te culpes pela culpa de outros.

De Elísio Macamo a 28.02.2011 às 20:20

obrigado, jpt, pelo reparo. é justamente esta a questão que me preocupa. leio comentários moçambicanos sobre os protestos no norte de áfrica e o seu principal teor é a expectativa de que alguém (de preferência os pobres e deserdados) se levante e faça uma "revolução". interpreto esta expectativa como falta de confiança na democracia porque não me parece que se tenham realmente esgotados os meios que o sistema político agora vigente nos dá. há, naturalmente, o problema de quem não quer ser excluído da tal "repartição descendente". mas lá está: o problema não é só dos governantes, é também nosso (dos cidadãos moçambicanos). a democracia não depende apenas de democratas no poder para poder funcionar. depende também de democratas na sociedade. abraços

De Elisio Macamo a 26.02.2011 às 17:20

obrigado pela reacção. por acaso cheguei a pensar que se tratasse de angola.

De jpt a 25.02.2011 às 08:24

E consigo imaginar-te empertigada ... quanto a apertar a mão ao demo deixa lá que pelo menos não dormiste com ele, como tantos o fazem (e pedem por mais)

De AL a 24.02.2011 às 23:37

Bem, pelo menos a minha salvei. Nao e' tanto culpa Catarina; e' mais o reconhecer que por vezes fiz compromissos de que pouco me orgulho e que, quica agora numa fase um pouco mais introspectiva, me interrogo sobre eles :)

De jpt a 27.02.2011 às 00:28

Elisio Macamo coloca aqui uma questão sobre Moçambique que me parece extremamente interessante (não é nova, ele próprio já a terá abordado alhures). As pessoas em Moçambique têm uma enorme contenção no exercício da cidadania mas diante de quê. Com efeito há uma grande plasticidade dos poderes face às expressões - o que acontece é que se têm os tais "fantasmas" que EM fala mas também, ao nivel da burguesia, há o medo de se ser excluído da repartição descendente via estatal (ou seus derivados). E isso em nada abona os que se contêm ...

De AL a 26.02.2011 às 23:01

Obrigada pelo seu comentario Pedro. Nao e' minha pretensao assumir responsabilidades alheias, mas mais um questionar de escolhas feitas ao longo de anos e que implicaram compromissos sobre os quais me interrogo. Uma fase umbiguista que aqui partilhei :)

De Pedro Silveira a 26.02.2011 às 22:07

Não, tu não te vendeste.

Quem se vendeu é quem pergunta porque sabe que há muito que se vendeu.

E tu não podes assumir a responsabilidade dos outros. Porque isso seria paternalismo.

De AL a 25.02.2011 às 15:42

JPT neste caso particular estava mesmo petrificada, embora possa ter parecido empertigada. E nao, nao dormi com o diabo; nem tive sequer essa tentacao :)

Elisio, o seu comentario e' pertinente, mas deixe-me primeiro fazer umas ressalvas. Nao se trata nem de Mocambique, nem de Angola, caso alguem possa pensar isso do texto acima. Tentei o mais possivel nao identificar o pais, pois nao e' o pais que interessa aqui, mas sim a situacao em si e o meu umbigo. Foi um momento de introspeccao se lhe quiser chamar assim. E' uma historia real, passada comigo; nao se trata da ficcionalizacao de nenhum episodio e as atrocidades cometidas no pais em questao nao eram imaginadas infelizmente. Antes fossem.
Como estrangeira que sou obviamente que tenho uma lente que me da a minha percepcao das realidades alheias. Por muito que a tente evitar, ela esta ca e eu tento ter consciencia dela.
Quanto as revoltas, o risco e' exactamente o que aponta - quando se fecha ou se diminui espaco de dialogo com a sensatez, como diz, e' por vezes o desespero que acaba por extravasar e "rebentar com a tampa". Ja nao sao agendas ou ideologias que se movem, mas tao somente um profundo sentimento de revolta. Obrigada pelo seu comentario.

De Elísio Macamo a 25.02.2011 às 13:56

só para complicar esta história interessantíssima; uma boa parte da sua plausibilidade depende da ideia comum que se tem dum país dominado por gente como este general benévolo. é gente que mata sem escrúpulos, encarcerra sem dó, trata os outros com luva de aço. países assim existem. mas existem também países que só são assim na nossa imaginação (ainda que tenhamos razões fortes para supor que sejam assim). e nesses países, alguns generais benévolos sabem que nós supomos que o seu país seja como nós o imaginamos. e jogam com isso. aliás, o que explicaria parcialmente a profunda impressão que a coragem de al causou nele. este é um problema sério e está a contribuir muito mais para comprometer a democracia em áfrica do que a atitude dos governantes. no meu próprio país as pessoas são paralisadas pelo "poder da frelimo" que está mais na sua imaginação do que na realidade. a verdadeira revolta que se precisa nesses países não é de jovens desesperados contra os "generais". 'e de gente sensata contra os seus próprios fantasmas. parabéns pela reflexão. torna claras muitas coisas.

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