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[/caption]Estreei-me no Ma-schamba em Novembro de 2009 com uma fotografia do meu amigo Miguel Barros, Africanista recente mas já viciado e com um texto que hoje deixo novamente aqui. Despertou-me a memória vívida de um fim de tarde mágico em Benguerua, sentada na areia ainda morna da praia à espera do dhow que nos vinha buscar. Eram assim as cores do nosso céu de então; o ar doce e manso, o mar adormecido em efeitos de seda. Deitados na proa do dhow, cruzámos a baía embalados pelo arrufo da água no casco, só quebrado pela conversa do vento com as velas. O matiz de cores foi-se esbatendo para dar lugar à luz ocre da lua que nascia. Lá à frente, a Ponta de S Sebastião, ao nosso lado deslizou Magaruque; cresciam os coqueiros que bordam Vilankulos. Tempo e espaço cristalizados num momento perfeito que nada se atrevia a perturbar. Já perto da vila começaram os tan-tans dos pescadores, a pastorearem o peixe para o redil dos baixios, onde a maré vazia os deixaria encurralados e presa fácil. Da margem, o ocasional ulular de uma mulher. Acostámos em frente à casa, numa magia de verbo sufocado e palavras supérfluas.Cheia de saudades e repleta de nostalgia aqui deixo esta carta de amor, ridícula como se querem as cartas de amor. A mim, à minha vida, à vida minha.AL
[/caption][caption id="attachment_27521" align="aligncenter" width="737" caption="Toguna ricamente ornamentada"]
[/caption]É um local muito aprazível. O chão de laje, amaciado por anos de uso, é fresco e convidativo. Geralmente, uma das lajes tem as cavidades necessárias para se jogar o que na Ásia se chama mancala, tchuva em Moçambique e oril em Cabo Verde. Trata-se de um jogo que já vi jogar (e joguei) em diversas partes do mundo; umas vezes com tábua própria, outras vezes com simples covinhas feitas no chão, que vão sendo enchidas e esvaziadas de pedrinhas, conchas, sementes… As regras variam de sítio para sítio, mas o objectivo geralmente é “comer” as peças do adversário.[caption id="attachment_27523" align="aligncenter" width="829" caption="mancala, tschuva ou oril"]
[/caption]A cobertura da estrutura é geralmente muito espessa e protege do sol e do calor; a ausência de paredes permite uma ventilação desimpedida; o pé direito destas estruturas é pouco mais de 1 metro. Pensei que fazia sentido, pois o tecto baixo impedia a incidência dos raios solares, proporcionando uma sombra maior. Até que um dos velhos numa aldeia me explicou educadamente que não teria sido isso que se tinha em mente. Disse-me ele não ser este um espaço para pressas, para um entra e sai desarvorado. Ter que entrar agachado e permanecer sentado lembra a quem chega que ali se fala, mas também se ouve. E com tempo! Mais ainda, sendo a estrutura um espaço de debate para questões importantes da aldeia e sendo a natureza humana aquilo que é, espera-se que durante esses debates os ânimos se exaltem. E, pessoas exaltadas tendem a levantar-se e a gesticular. Sempre que tal acontece o exaltado bate invariavelmente com a cabeça no tecto, acalmando assim de imediato os ânimos. Nada de dizer bojardas e sair porta fora, não senhor!Agora vem a parte que mais me espantou. O nome destas estruturas é toguna ou casa-palavra. Assim, tal e qual, no mais puro português. Nome que nem sequer sofria de qualquer abastardamento da pronúncia francesa, língua oficial do Mali. Nada de cásá-pálavrá, mas sim cása-palávra com a fonética portuguesa toda no sítio devido. Intriguei-me, perguntei de onde viria tal nome e ninguém me soube dizer. Nem no Museu Nacional em Bamako consegui encontrar explicação. Já “googlei” o nome e nada! Será que algum dos leitores do maschamba me consegue esclarecer?* texto postado originalmente em 9 de Novembro de 2009AL
[/caption]O amor antigo vive de si mesmo,não de cultivo alheio ou de presença.Nada exige nem pede. Nada espera,mas do destino vão nega a sentença.O amor antigo tem raízes fundas,feitas de sofrimento e de beleza.Por aquelas mergulha no infinito,e por estas suplanta a natureza.Se em toda a parte o tempo desmoronaaquilo que foi grande e deslumbrante,o antigo amor, porém, nunca fenecee a cada dia surge mais amante.Mais ardente, mas pobre de esperança.Mais triste? Não. Ele venceu a dor,e resplandece no seu canto obscuro,tanto mais velho quanto mais amor.Carlos Drummond de AndradeAL (para DM)
[/caption]A minha casa em Maputo (flat) ficava num sexto andar que, por causa do desnível da rua, seria um oitavo em qualquer outro sítio. À nossa frente as casas eram todas vivendas baixas e a casa tinha uma vista maravilhosa sobre a baía de Maputo, com os Pequenos Libombos a rematarem nas montanhas mais altas da Swazilândia e da África do Sul. Resquícios finais das Drakensberg, estas. Do outro lado do rio viam-se ainda os mangais da Catembe e o sempre dramático cemitério de navios que expunha os esqueletos na maré baixo. Do lado direito da Baia desaguavam o Matola, o Tembe e o Umbeluzi numa orgia de sedimentos. A vista da varanda da sala era sempre uma alegria para os olhos. E era exactamente por este lado da cidade que se aproximavam as fantásticas tempestades tropicais da época das chuvas. Desciam as Drankensberg (chamemos-lhes assim), saltavam os Libombos e desaguavam na cidade com toda a fúria. Geralmente de madrugada; ocasionalmente ao por do sol.Na minha casa em Maputo, todos os dias de madrugada ouvia o muezzin da mesquita da Baixa da cidade; todos os dias acordava embalada pelo seu canto. Eram despertares lentos e maravilhosos, por vezes seguidos de mais umas horas de sono profundo. Mas se por entre as pálpebras semi-cerradas percebia um clarão, lá ia eu a correr para a varanda para saudar a tempestade que se aproximava. Por vezes vinha ainda tão longe que nem os trovões se ouviam; viam-se meros clarões no horizonte, como se de um farol costeiro se tratasse. Lentamente desenhavam-se nuvens gordas, prenhas de chuva; apanhavam balanço a descer as Drakensberg e vinham numa correria louca, a cuspir relâmpagos e a atroarem os ares anunciando a sua chegada. Eram tempestades verdadeiramente dramáticas. E eu, sentada na varanda, saudava-as sempre com emoção. Os relâmpagos destas tempestades são como eu nunca vi noutro lugar. São cordas enormes de luz que saltam em todas as direcções. Muitos caem no chão e por vezes parecem uma cortina de fitas. Os trovões são tão retumbantes que tremem paredes e vidros.Perdi num dos muitos computadores que me roubaram as fotografias que tinha da baia de Maputo vista da minha varanda. Mas no youtube consegui encontrar o canto do muezzin que aqui vos deixo.Ezan Call to prayer 1AL* post originalmente publicado em 8 de Outubro de 2010
[/caption]O meu namorado tem um amigo que era óptimo para ti, dizia-me a L, pouco convencida com a satisfação anexada ao meu estado de solteira. E se eu te marcasse um blind date? Corriam os anos 80 e da internet não havia ainda nem rumores. Blind dates conhecia-as eu dos filmes e séries americanas. Mas adensava-se já em mim o desassossego de errância que me iria orientar os 20 anos seguintes e fazer-me lançar em estreias impensadas. E esta parecia mesmo vinda de Hollywood.O encontro ficou marcado para o fim da tarde num bar lindo junto ao Bairro Alto, com mesa marcada para o restaurante da berra na época. Noite chuvosa, fria e desagradável; roupa chique e sexy, mas sem demasiada ousadia. Do moço apenas sabia a alcunha que decidi recusar-me a utilizar por reivindicar uma intimidade inexistente. Chego com algum atraso como mandava o recato e vejo sentado ao balcão um homem desfocado, desbotado a preto e branco. Nem tinha sequer uma patine de sépia que lhe desse um laivo de distinção ou uma pincelada de interesse. Percebi logo o erro que tinha sido e o pesadelo de blind date que me esperava. Pensei: estou perdida!Dirijo-me a ele, sorrio, estendo a mão e digo: Olá, sou a Ana. Qual é mesmo a tua graça?, perguntei eu pensando na alcunha para mim indizível. Bem, hesita ele encarnado em Calimero e sem qualquer laivo de ironia, humor, ou alegria - eu acho que graça não tenho mesmo nenhuma. Sem dar tempo a que a estupefacção assentasse retorqui: pois graça não terás, mas não deixas de ter razão; desculpa, isto foi um erro. Virei as costas e saí estupefacta então eu pela crueldade irreflectida e perdido ele num termo desconhecido.ALDe um amor morto ficaUm pesado tempo quotidianoOnde os gestos se esbarramAo longo do anoDe um amor morto não ficaNenhuma memóriaO passado se rendeO presente o devoraE os navios do tempoAgudos e lentosO levam emboraPois um amor morto não deixaEm nós seu retratoDe infinita demoraÉ apenas um factoQue a eternidade ignoraSophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"AL
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