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maschamba



Sexta-feira, 01.04.11

Jogos de amizade, ou sobre formas perversas de violência, ou sobre a igualdade

Há situações na vida que não sei porquê me fazem pensar nas escolas de condução: ensinam-nos a guiar mas nunca nos preparam para as emergências. Temos lições nas estradas direitinhas e asfaltadas, aprendemos a fintar o trânsito, a arrumar melhor ou pior o carro. O que nunca aprendemos é como guiar numa picada, ou o que fazer se uma criança se atravessa de repente à nossa frente, se rebenta um pneu ou se nos cruzamos com um camião descontrolado. A vida às vezes também é assim.Vem isto a propósito de uma amiga minha. Ligou-me hoje: estás em casa, posso passar por aí? Sim, vem. Entrou visivelmente incomodada. Tenho um admirador secreto, diz ela em tom de confissão. Nada de ameaçador ou aterrador estilo filme negro americano, mas alguém que lhe envia mensagens escritas a gabar-lhe o traje, por exemplo, ou a dizer-lhe que com ela se cruzou e a achou triste ou com um sorriso bonito. Tudo isto sem se identificar e sempre com reafirmações que não deve ela recear algum mal dali chegado. Hoje tinha na caixa do correio uma rosa. Sem bilhete e sem mensagem. Uma simples rosa enfiada na caixa do correio, como que a celebrar os dias bonitos que temos tido. Que fizeste? Nada! Nem coragem tive ainda de contar a alguém. Porquê? Porque tenho vergonha e porque de uma forma perversa sinto culpa. Sinto-me suja, invadida, humilhada e sinto que se contar vão logo pensar: esta alguma fez para isto acontecer.E eu, ainda estupefacta e antes que saísse algo mais da minha boca, lembrei-me de situações semelhantes em que também eu fui ameaçada e me calei, exactamente pelas mesmas razões e pelos mesmos sentimentos. Típicos do processo de vitimização e enraizados nos preconceitos que nos regem a nós, mulheres e homens. Somos profissionais independentes e cidadãs autónomas, criamos famílias; fazemos o que qualquer homem faz. Perante a lei somos iguais, gozamos dos mesmos direitos; até nos sentimos iguais. Ninguém questiona já esta igualdade e sua justeza. Mas circunstâncias como estas mostram-nos o caminho que ainda nos falta percorrer.Vamos até supor que o admirador secreto da minha amiga é bem intencionado e inofensivo e até pode pensar que lhe traz alguma alegria com estes pequenos gestos de adulação; que nunca lhe tenha ocorrido que tais gestos possam ser sentidos como invasores da privacidade e sentidos como ameaça latente. É na sua falta de interrogação e no seu pressuposto do agrado que reside a nossa desigualdade; é na nossa incapacidade em superar esta vergonha e culpa que sentimos, que nos desigualamos.E aqui lembro-me de uma amiga minha iraniana que uma vez me disse que nós mulheres ocidentais pagamos um preço elevado pela nossa liberdade – não temos igualdade, diga a lei o que disser, e não temos ninguém que nos proteja e que véus também nós os usamos, só que os nossos são transparentes.Olho desolada para a minha amiga e não sei o que lhe dizer.AL

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por AL às 19:57


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