Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

maschamba



Sábado, 23.07.11

Nós e os outros

[caption id="attachment_29069" align="aligncenter" width="700" caption="Colagem de Pep Ventosa"][/caption]Talvez por mera coincidência ultimamente tenho sido quase sempre servida por portugueses quando viajo pela Europa. Numa viagem recente, a camareira do meu quarto no hotel em Geneva era portuguesa; a senhora que limpava o meu quarto de hotel em Amsterdão era portuguesa; a rapariga do restaurante em Zurique, era portuguesa. Portugueses também o rapaz do balcão do Costa Caffee em Heathrow e da baiuca de café em Schiphol. E poderia continuar a enumerar este tipo de encontros por essa Europa fora.Mas o que hoje aqui me traz, a este post, foi a deliciosa conversa que tive com a camareira de Geneva. Perguntei-lhe se gostava de estar na Suíça – pergunta aliás que faço quase sempre pela geral candura das respostas e por nos levar na senda da diáspora familiar. Sim, gosto muito. E contou-me a partida do pai (a salto), primeiro; as dificuldades de um início de vida; a vinda dela ainda criança e da mãe que a ele se juntaram; a língua que não entendiam, os costumes que não conheciam; os quase 40 anos de vida expatriada... Mas dantes era melhor, sabe?, agora já não é a mesma coisa; agora vêm para aí os da Europa do Leste. E remata num abanar de cabeça desaprovador: Isto está a ficar cheio de estrangeiros!AL

Autoria e outros dados (tags, etc)

por AL às 03:27

Sexta-feira, 22.07.11

Torres de marfim

Na outra encarnação do Ma-schamba contei uma história sobre o Presidente Moi do Quénia, o comércio do marfim e as filmagens do Out of Africa:[caption id="attachment_29057" align="aligncenter" width="515" caption="Queima em 1989"][/caption]
O shooting do filme coincidiu no Quénia com a aprovação, pelo na altura Presidente Moi, da directriz das Nações Unidas que bania o comércio em marfim. O governo queniano tinha feito enormes apreensões de marfim e queria fazer uma qualquer demonstração pública e impressionante da sua destruição. Foi decidido fazer então uma enorme fogueira queimando as toneladas de marfim entretanto apreendidas. O Presidente Moi deveria aproximar uma tocha da enorme pilha, que deveria de imediato irromper em chamas altas e vigorosas, simbólicas do ímpeto anti-marfim.Fizeram-se testes e ensaios, mas o marfim demora imenso tempo a começar a arder e tem uma combustão lenta e difícil. Assim, quando aproximavam a tocha da pilha-teste nada se passava durante uns minutos e depois lá surgia uma mísera coluna de fumo esbranquiçado e raquítico…Foi então que alguém se lembrou que havia uma equipa de Hollywood a filmar algures no país e que seguramente dispunham de peritos em efeitos especiais. E assim foi! O filme era o Out of Africa, o ano de 1989. Neste ano de 2009 o que se elevou em fumo foram as restrições ao comércio de marfim, sem quaisquer efeitos especiais…
De facto, em 2009 a ONU abriu uma excepção à proibição total do comércio de marfim e permitiu a venda em leilão de marfim apreendido nalguns países africanos. E é aqui que se entra nos cinzentos e as coisas se complicam. Porque a redução do habitat natural dos elefantes devido à pressão demográfica traduz-se na necessidade de se controlar a população de elefantes em determinadas áreas, o que frequentemente é feito por abate selectivo. O marfim proveniente destes abates juntamente com o marfim apreendido, se vendido legalmente, significa boas receitas para países que delas precisam. Mas a abertura de vias legais para o comércio de marfim facilita o negócio paralelo e acaba por incentivar o abate furtivo de elefantes num crescendo difícil de controlar.Foi isso exactamente que aconteceu no Quénia onde o número de abates ilegais detectados subiu de 57 em 2008 para 90 em 2009. E daí para cá não parou de aumentar.  Relembremos que na década de 1970 existiam 1,3 milhões de elefantes em África e actualmente existem apenas 500.000. E relembremos também que o único propósito do marfim é a vaidade.Numa semana em que se debate o levantamento ou não da proibição do comércio de marfim, o presidente Mwai Kibaki do Quénia procedeu à queima pública de cerca de 5 toneladas apreendidas em Singapura em 2002, com um valor de 10 milhões de libras. Pena é que na pira do marfim não arda também a vaidade; para isso não há ainda efeitos especiais.[caption id="attachment_29058" align="aligncenter" width="750" caption="Queima de 20 de Julho de 2011 - Foto de Tony Karumba/​AFP/​Getty Images"][/caption]AL

Autoria e outros dados (tags, etc)

por AL às 02:26

Segunda-feira, 18.07.11

Museu e memória

Visitei o Museu de Robben Island em 1997, tinha ele aberto há pouco tempo. Havia ainda muito poucos a fazê-lo e naquele dia meio cinzento e de mar picado convenhamos que a travessia não era a mais convidativa; éramos um grupo de cerca de 10 pessoas. Fomos recebidos no cais por um ex-prisioneiro que nos fez o tour da prisão-museu. Talvez por causa do dia ventoso e meio cinzento, talvez por sermos poucos os visitantes, talvez também porque o local a tal convidava, o ambiente tornou-se introspectivo e o nosso guia guiou-nos pela calçada da sua memória. Deambulámos vagarosamente pelos corredores, pátios, salas e celas enquanto ele, quase num transe, ia entrelaçando as suas vivências no espaço que percorríamos e nas vidas que por lá passaram. Abalados pelo local e sob o peso da sua catarse, nós, os visitantes, seguíamo-lo em silêncio. Acabámos sentados nos bancos corridos de uma das salas adjacentes aos balneários enquanto ele acabava a sua história: Depois de tantos anos aqui dentro não consegui viver lá fora... A chegada do ferry que nos ia levar de volta despertou-nos do feitiço em que nos encontrávamos. Ele limpou as lágrimas, apertou a mão a cada um de nós e desapareceu por uma porta. Nós seguimos para o ferry, num silêncio que só foi quebrado por sussurros quase à chegada a Capetown.Celebramos hoje o aniversário de Mandela. Disseram-me um dia que falar dele é como falar do 25 de Abril ou do 11 de Setembro; todos parecemos ter uma memória pessoal a ele associada. A minha é esta.AL

Autoria e outros dados (tags, etc)

por AL às 01:34

Sábado, 16.07.11

O que não faz falta

[caption id="attachment_29036" align="aligncenter" width="517" caption="Foto daqui: http://www.torricado.com/images/lang/02interioresexteriores/entrada_exteriores.jpg"][/caption]Eu até gostava de ir lá ao fim da tarde. Eu com uma coca cola bem fria e a companhia geralmente com uma cerveja (vil beberragem). Estava-se bem por lá, a praça ampla e arejada, distante qb da avenida e do tráfego. As esplanadas variadas, protegidas de vento e sol. Já as conhecíamos e íamos variando de acordo com o petisco que nos apetecia – os croquetes desta, as gambas daquela... Não teria grandes vistas, mas fica no meu bairro e era agradável para uma cavaqueira amena de planos para o jantar e noite que se segue. Até que o nosso vereador que faz falta, lembram-se dele?, teve a ideia peregrina de mandar retirar os toldos e guarda-ventos das esplanadas. O que era um local aprazível, tornou-se inóspito, desabrigado e desagradável; as esplanadas esvaziaram-se; desertificou-se a praça. Parabéns senhor vereador! Conseguiu finalmente passar de pateta inócuo a pateta pernicioso; conseguiu dar cabo da vida que animava o Campo Pequeno.AL

Autoria e outros dados (tags, etc)

por AL às 18:30

Sexta-feira, 15.07.11

Sibelius, Finlândia*

[Error: Irreparable invalid markup ('<a [...] 480">') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

<a href="&lt;object width=" 480"="480&quot;" height="390" rel="noopener"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Fgwr3wrenkQ?version=3&amp;hl=en_GB&amp;rel=0"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Fgwr3wrenkQ?version=3&amp;hl=en_GB&amp;rel=0" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="390" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed>"> </a> Um dia a guerra invadiu-lhe o <a href="http://bemfalar.com/significado/quimbo.html" rel="noopener">quimbo</a>. Na urgência da fuga levou o que de mais precioso tinha: o gira-discos e o disco único do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Sibelius" rel="noopener">Sibelius</a>, lembretes de uma vida sem guerra e miséria. Foram semanas de sobressalto e caminhada até acampar num país desconhecido. Na tenda que lhe atribuíram reunia a pequenada e, ao som roufenho do Sibelius, instruía-os nas primeiras letras e contava-lhes como era viver sem guerra e sem fome, como era viver com dignidade e com respeito. Falava-lhes da beleza e acalentava-lhes a esperança. Todos os dias se montava na partitura e voava até à Finlândia que, com o tempo, foi adquirindo a patine da perfeição. Irmão!, conte-nos como é a vida na Finlândia. E o irmão contava da abundância de comida, do tamanho da maçaroca e do sumo das mangas, das tendas que não deixavam entrar água, das mamãs e papás que não morriam, dos manos que não tinham que ir para a guerra, das escolas com carteiras e cadernos, dos hospitais com camas para os doentes e remédios para todas as doenças. Com cada nota de Sibelius ia adicionando um grau de perfeição na Finlândia dos seus sonhos: João portou-se mal?, <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer</em>!; entupiram-se as latrinas?, <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer!</em>; houve zaragata no quarteirão abaixo?, <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer</em>!; morreu o bebé da Zeferina?, <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer</em>!; vão mudar o racionamento?, <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer</em>!; o marido da Betina embebedou-se?, <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer</em>!;. Criou assim uma vida alternativa para os meninos que o ouviam e que, por umas horas, saíam do campo aramado em que viviam e voavam até àquele seu mundo perfeito.Muitos anos depois, num próspero país ocidental, dizia-me um deles: ainda hoje se algo me corre mal na vida me lembro deste meu irmão e repito para mim <em>Ah! Na Finlândia, isto não iria acontecer</em>!. E eu comovida pensei que talvez o sonho e a esperança sejam os legados mais lindos que se possam deixar.* Post dedicado ao meu amigo SJ que cresceu ao som de Sibelius na Finlândia mítica deste irmãoAL

Autoria e outros dados (tags, etc)

por AL às 17:06

Pág. 2/2



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Julho 2011

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31