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Estou mais perto de ti porque te amo.Os meus beijos nascem já na tua boca.Não poderei escrever teu nome com palavras.Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.Quero a tua boca aberta em minha boca.E amo-te como se nunca te tivesse amadoporque tu estás em mim mas ausente de mim.Nesta noite sei apenas dos teus gestose procuro o teu corpo para além dos meus dedos.Trago as mãos distantes do teu peito.Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.E eu estou perto de ti porque te amo.Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'AL

Por muito tempo achei que a ausência é falta.E lastimava, ignorante, a falta.Hoje não a lastimo.Não há falta na ausência.A ausência é um estar em mim.E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,que rio e danço e invento exclamações alegres,porque a ausência, essa ausência assimilada,ninguém a rouba mais de mim.Carlos Drummond de Andrade in 'O Corpo'AL
[/caption][caption id="attachment_33716" align="aligncenter" width="664" caption="Nyerere e ao fundo o centro comercial da 24 de Julho (Hotel Avenida em primeiro plano)"]
[/caption][caption id="attachment_33715" align="aligncenter" width="664" caption="Cruzamento Mondlane/Nyerere"]
[/caption][caption id="attachment_33717" align="aligncenter" width="664" caption="Ao fundo, cupula da Igreja de St Antonio da Polana"]
[/caption][caption id="attachment_33712" align="aligncenter" width="664" caption="Coco-lenho (hmmmm)"]
[/caption]AL
[/caption]É jovem ainda. Tem mulher e um filho com 3 anos. Confiou o seu ganha-pão a uma tschopela que fraco rendimento gera. Ando a estudar para técnico desenhador, diz-me, mas este ano não tive dinheiro para pagar a matrícula, lamenta sem amargura. Com a resignação de quem desde muito cedo se habituou a descartar sonhos e a deitar mãos à vida. Esmiuceia-me os rendimentos e as despesas para que me inteire da justeza da sua decisão. Mãe, pergunta-me, a escola de belas artes de Portugal é no Porto, não é? Explico e ele acrescenta, O meu sonho era estudar arquitectura!. Vira-se para trás com um brilho de “e-se?” nos olhos e um sorriso aberto no rosto. Gostas mesmo de desenho, não gostas?, pergunto eu sem jeito e de voz embargada. Ah mãe, adoro!Despedi-me hoje dele. Estendi-lhe a mão que ele puxou para me dar um abraço. Não vou te esquecer mãe. Deixa-me à porta de casa com este enorme aperto no coração. Raio de vida!AL
[/caption]Há palavras que nos beijamComo se tivessem boca.Palavras de amor, de esperança,De imenso amor, de esperança louca.Palavras nuas que beijasQuando a noite perde o rosto;Palavras que se recusamAos muros do teu desgosto.De repente coloridasEntre palavras sem cor,Esperadas inesperadasComo a poesia ou o amor.(O nome de quem se amaLetra a letra reveladoNo mármore distraídoNo papel abandonado)Palavras que nos transportamAonde a noite é mais forte,Ao silêncio dos amantesAbraçados contra a morte.Alexandre O'Neill in 'No Reino da Dinamarca'AL
AL
* empurrar
Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Conheço-a: é minha amiga e diz-me que foi a guerra que lhe deu força para ser quem é! Mulher
Com grande pena minha não a conheci como gostaria de ter conhecido e poucas foram as memórias que comigo partilhou. Mas a riqueza das suas histórias e a frontalidade com que as contou são-me inesquecíveis.Fruto do seu tempo e da sua época, enfrentava inimigos e críticos de peito aberto, acção em riste e palavra pronta. Não perdoou afrontas nem insultos, mas nunca fechou a generosidade a quem dela precisava. Indiferente à popularidade da causa, empenhava-se a fundo nela se nela acreditasse. Fiel a si mesma e aos princípios pelos quais viveu, nunca se rendeu a facilitismos nem se escondeu atrás de justificações ocas. Amou África; em África nasceu, viveu, lutou e morreu… mas foi Moçambique a sua grande paixão!Não concordei certamente com muitas das suas opiniões, mas sempre lhe reconheci a coragem com que se bateu e a honestidade com que viveu. E por isso a admirei e por isso lhe criei amizade. Senhora de uma memória de elefante leva consigo uma história que fica por contar, deixando-nos a todos por isso mais pobres.Pessoas há que parecem maiores que a Vida; era assim a Lucinda! Tenho duas filhas e uma neta e meia; matriarcas nos batemos para que o mundo delas seja diferente.ALA subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.