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maschamba



Quinta-feira, 14.06.12

A minha twilight zone

 

Amanheceu frio o dia. Luminoso, céu azul com nuvens à Simpsons, embrulhado num vento fresco e cortante que assobiava na baía. Ao virar de uma curva deparo-me com um vulto que rasteja na berma da estrada. Paro e pasmo perante a indiferença da rua; como se zombies fossem e de um vulto invisível se tratasse. Arrastava-se, puxando com os braços o corpo de pernas estendidas, num gesto de comando suado em centímetros. Ligo para amigo: ouve lá, o que faço? Treme-me a aflição na voz; desarticulo o que vejo. Vem à esquadra aqui ao lado de casa, diz-me ele.Mudam-se turnos na esquadra mas o comandante quer mostrar serviço. Não esperam nada pá! Vão já com a senhora que temos ali uma situação. Metem-se os três numa carrinha que segue atrás de mim em tons de emergência. Duas ruas à frente lá está o vulto, inexistente, agora encostado a um muro. Aponto, é aquele senhor. Olham-me os três com ar de consternação. Oh minha senhora, então a senhora não vê que ele é demente? Eu incompreendo. A gente conhece-o! É um louco. Dorme ali ao fundo daquela rua lá, quando se vira ansim (faz o gesto à esquerda com a mão). Costuma passar ali na esquadra, damos-lhe água e umas bolachas. O pobre louco, que agora vejo ser louco, inclina-se e lambe, junto ao bueiro, uma poça de água ainda com o sabão do carro lavado. Como que a sublinhar o enunciado pelo polícia. Eu hesito consternada sem saber que expressão alinhavar. Sinto-me fora do tempo e do modo, estrangeira que sou, e é então que a tragédia vira farsa.O louco toma-nos por assistência. Sorri, dá cambalhotas no meio da estrada, mostra o rabo, bate palmas... Ri ele, riem os polícias, riem os guardas estacionados nos portões, ri quem passa. Riso louco o dele, riso de aceitação e até mesmo carinho dos outros. Familiar naquela zona afinal; todos o conhecem menos eu. Conhecem-lhe o dormir, vão-no alimentando com o pouco que têm. Esperam-no quando ele tarda lá no centro onde o sabem internado. Sabem, quando ele chega, que acabou no hospital a comida dos doentes.Ali o deixamos. Parto, com um travo agridoce e lembro-me de um velho amigo que diz com frequência pois é, no mundo real as pessoas morrem de fome.AL

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por AL às 22:58


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