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maschamba



Domingo, 24.04.11

Tempestades (re-edição)*

[caption id="attachment_27426" align="aligncenter" width="578" caption="Foto de Mitch Dobrowner aqui: http://www.mitchdobrowner.com/index.html"][/caption]A minha casa em Maputo (flat) ficava num sexto andar que, por causa do desnível da rua, seria um oitavo em qualquer outro sítio. À  nossa frente as casas eram todas vivendas baixas e a casa tinha uma vista maravilhosa sobre a baía de Maputo, com os Pequenos Libombos a rematarem nas montanhas mais altas da Swazilândia e da África do Sul. Resquícios finais das Drakensberg, estas. Do outro lado do rio viam-se ainda os mangais da Catembe e o sempre dramático cemitério de navios que expunha os esqueletos na maré baixo. Do lado direito da Baia desaguavam o Matola, o Tembe e o Umbeluzi numa orgia de sedimentos. A vista da varanda da sala era sempre uma alegria para os olhos. E era exactamente por este lado da cidade que se aproximavam as fantásticas tempestades tropicais da época das chuvas. Desciam as Drankensberg (chamemos-lhes assim), saltavam os Libombos e desaguavam na cidade com toda a fúria. Geralmente de madrugada; ocasionalmente ao por do sol.Na minha casa em Maputo, todos os dias de madrugada ouvia o muezzin da mesquita da Baixa da cidade; todos os dias acordava embalada pelo seu canto. Eram despertares lentos e maravilhosos, por vezes seguidos de mais umas horas de sono profundo. Mas se por entre as pálpebras semi-cerradas percebia um clarão, lá ia eu a correr para a varanda para saudar a tempestade que se aproximava. Por vezes vinha ainda tão longe que nem os trovões se ouviam; viam-se meros clarões no horizonte, como se de um farol costeiro se tratasse. Lentamente desenhavam-se nuvens gordas, prenhas de chuva; apanhavam balanço a descer as Drakensberg e vinham numa correria louca, a cuspir relâmpagos e a atroarem os ares anunciando a sua chegada. Eram tempestades verdadeiramente dramáticas. E eu, sentada na varanda, saudava-as sempre com emoção. Os relâmpagos destas tempestades são como eu nunca vi noutro lugar. São cordas enormes de luz que saltam em todas as direcções. Muitos caem no chão e por vezes parecem uma cortina de fitas. Os trovões são tão retumbantes que tremem paredes e vidros.Perdi num dos muitos computadores que me roubaram as fotografias que tinha da baia de Maputo vista da minha varanda. Mas no youtube consegui encontrar o canto do muezzin que aqui vos deixo.Ezan Call to prayer 1AL* post originalmente publicado em 8 de Outubro de 2010

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por AL às 02:17


1 comentário

De Rumos 2 | ma-schamba a 17.10.2012 às 18:10

[...] esta casa ainda vazia de si. Vejo pela janela a varanda da casa onde vivi quando outrora cá morei; aquela varanda da qual via aproximarem-se as tempestades que escorriam dos pequenos libombos. Espreito-a daqui e [...]

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